Vol. 7 (2024): VII ENCONTRO ANUAL: ANAIS DA REDE DE PESQUISA EM GOVERNANÇA DA INTERNET
Descrição da edição
“Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar”
Em agosto de 2022 uma série de ativistas, professoras/es e pesquisadoras/es lançaram uma carta em defesa da Soberania Digital que foi entregue ao então candidato à presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. A carta se inicia com a afirmação de que as “tecnologias digitais não podem servir para ampliar as desigualdades e a dependência do país ao grande capital internacional”, como vem ocorrendo. Como indica o projeto Educação Vigiada, quase 80% das instituições públicas de Ensino Superior, no Brasil, utilizam as plataformas das big techs (principalmente Google e Microsoft) para hospedagem de e-mails e outros serviços vinculados às atividades de ensino e pesquisa. Dados comportamentais de estudantes e docentes estão sendo coletados e monetizados sem que saibamos como e com quais consequências. Materiais de pesquisa estão sendo hospedados em servidores fora do país, em locais onde não há legislação compatível com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Noutro exemplo, o aplicativo do governo federal SouGov entrega dados de servidores públicos federais para o desenvolvimento dos sistemas de inteligência artificial da IBM Watson (Silveira, 2023). Entre os resultados mais imediatos do desinvestimento em infraestrutura de informação e comunicação no país, estão a captura de receitas pelo capital internacional, bem como o encolhimento do setor e das vagas de emprego no Brasil. Na periferia do capitalismo, a economia política das tecnologias de informação e comunicação nos mantêm numa condição servil, alvos do extrativismo de dados e fornecedores de mão de obra uberizada.
A superação desse quadro de colonialidade digital em prol do exercício da soberania tecnológica e da tecnodiversidade passa pela compreensão da indissociabilidade entre técnica, política e produção de conhecimento, materializadas cotidianamente em práticas tecnoculturais e tecnocientíficas. Os desafios enfrentados por ativistas e pesquisadoras/es da Governança da Internet, face aos problemas apontados, exige um esforço coletivo para que possamos inventar e construir um futuro sociotécnico que contemple o direito à soberania e à autonomia.
A presente chamada se coloca como um convite para a construção de uma agenda de pesquisa que contribua para o enfrentamento das relações de colonialidade que se ancoram em tecnopolíticas digitais e que perpassam diversos planos e escalas: do plano geopolítico à micropolítica; dos conflitos pela terra aos conflitos urbanos; do racismo à misoginia, contemplando suas interseccionalidades. Numa revisão do modelo multissetorial, é desejável que a Governança da Internet acolha formas de pensar e viver que historicamente são desconsideradas ou marginalizadas em instâncias de decisão sobre os modos como operam nossas infraestruturas de informação e comunicação.