Vol. 4 (2021): IV ENCONTRO ANUAL: ANAIS DA REDE DE PESQUISA EM GOVERNANÇA DA INTERNET
Descrição da edição
Internet em tempos de catástrofes: digitalização, desigualdades e perspectivas de governança
1. REDE 2021A Rede de Pesquisa em Governança da Internet (REDE) é uma rede acadêmica autônoma, multi e transdisciplinar formada por pesquisadoras/es de temas relativos à Governança da Internet, que buscam discutir o plano tecnopolítico da rede e suas consequências técnicas, sociais, econômicas e para políticas públicas.
Nos dias 04 e 05 de outubro de 2021, ocorrerá online o IV Encontro da REDE (REDE 2021). O evento tem o objetivo de (i) propiciar um espaço permanente de intercâmbio, diálogo e colaboração entre pesquisadoras e pesquisadores da Governança da Internet, em diferentes estágios de formação e provenientes de diversas áreas de atuação; (ii) divulgar os resultados das mais recentes pesquisas relacionadas à Governança da Internet; e (iii) proporcionar um espaço de interação de abordagens, enfoques, metodologias e métodos de pesquisa que permita ampliar o debate e a investigação sobre o tema no Brasil.
Espera-se com esta, e outras ações da REDE, que a produção acadêmica brasileira, em diálogo com a produção Latino-americana e internacional, venha a contribuir de modo sistemático com a Governança da Internet, seja para o fomento às discussões científicas bem como para o suporte às políticas públicas e ações empresariais.
Neste Encontro, o tema será: Internet em tempos de catástrofes: digitalização, desigualdades e perspectivas de governança.
Em 2015, numa TEDTalk, o fundador da Microsoft Bill Gates mencionava as mais de dez mil vidas humanas perdidas para o ebola para advogar por uma ação que prevenisse futuras epidemias. Nessa palestra, a lógica de investir em um sistema de prevenção se apoiava na capacidade de vigilância de certas tecnologias, como celulares e satélites, e também em projeções de perdas econômicas devido a tais desastres, já feitas pelo Banco Mundial.
Essa fala, que viralizou em 2020 durante a maior catástrofe sanitária da era digital, não deveria surpreender, tendo em vista as infraestruturas digitais que possíveis sistemas de prevenção e vigilância em saúde pública precisam ter, incluindo aquelas potencialmente produzidas por empresas como a Microsoft. Ao mesmo tempo, os valores imbricados em tecnologias de mediação de catástrofes, para serem melhor compreendidos, não deveriam ser dissociados de questões políticas e econômicas ausentes na palestra de Bill Gates.
Por um lado, na economia capitalista, sabemos que a prevenção de desastres perde em prioridade num cenário em que os custos posteriores, incluindo processos judiciais, e ações de recuperação, apresentam mais vantagens aos atores econômicos envolvidos do que os custos com prevenção, como visto em 2019, com a tragédia de Brumadinho. Por outro, a capacidade de conglomerados econômicos lucrarem em situações de calamidade é por Arjun Appadurai associada a um “capitalismo de cassino que lucra com a catástrofe e tende a apostar no desastre” (The Future as Cultural Fact, p. 295). De fato, para Isabelle Stengers em seus estudos sobre mudança climática, o capitalismo “é incapaz de hesitar: [ele] não pode fazer outra coisa senão definir cada situação como uma fonte de lucro” (In Catastrofic Times: Resisting the Coming Barbarism, 2015, p. 8-9).
É nesse contexto que o Encontro da REDE 2021 nos convida a refletir sobre a Internet em tempos de catástrofes: digitalização, desigualdades e perspectivas de governança.
Enquanto a COVID-19 tem posto a sociedade em situações de exceção, de dor, e questionamentos até então não vivenciadas de forma global na era da internet, o Encontro da REDE 2021 será um espaço para entender não apenas o que se revela como possivelmente novo num período de pandemia, mas também os aspectos permanentes que se estendem historicamente como resultado dos fenômenos de digitalização e de desigualdade, assim como as perspectivas para uma governança da internet que apresente alternativas à lógica de lucro e de não priorização à vida do capitalismo global.
Inspiradas/os por Milton Santos e pela possibilidade de materialização de uma globalização mais humana (Por uma Outra Globalização: do Pensamento Único à Consciência Universal, 2000), perguntamos:
a) De que maneira a internet e sua infraestrutura se relacionam, amplificam ou se opõem à estrutura do capitalismo global?
b) Que formas de governança de dados, em curso ou não, apontam para mediações digitais mais éticas e justas como alternativa à lógica de concentração de poder preponderante na Governança da Internet?
c) Como a pandemia da COVID-19 ilumina novas formas de entendimento sobre a internet e as tecnologias digitais?
Tais questões são colocadas como provocação. Esperamos que os trabalhos submetidos contribuam com reflexões que as tomem como pano de fundo dentro de suas respectivas temáticas e áreas de conhecimento, sejam estas de cunho teórico, técnico ou metodológico.